2.

Não, não, há algo antes disso… uma cena mais profunda: criança sentada no assoalho, mas não há palavra, não há página; no quarto dos avós, lado esquerdo da cama, perante um tapete preto decorado com cruzes formadas de losangos brancos espaçados entre si. Ela segura um lápis entre o indicador e o polegar e o move rápida e repetidamente; tais movimentos criam no ar uma ilusão: nas extremidades, um lápis-Janus mantêm sua solidez; entre elas, a tonalidade tensa, um efeito da retenção retiniana, o fantasma (qual seria a sua acolhida se a cada um coubesse proteger a vida de uma cor? Nesta noite eu aperto ao peito esse branco baço, meu nascerzinho de sol). Méliès mambembe, repete, repete, repete esses movimentos — e com isso tranca o corpo. Antes: atenção-rosa-dos-ventos, bafo morno do mundo no cangote, as pupilas feito imã e gosma. Agora: o olhar rói seu osso e repousa. Veja! A imaginação sente na pele a abertura de todas as celas e visita uma a uma. Sou eu essa criança? É possível. Eu sei, como ele, que uma abundância é sempre disponível, basta recuar adiante, e eu sei também: de fora, ninguém pode ver que a coisa-em-si é meu bicho de estimação. (Se essa confissão soa pedante, que se há de fazer? Tenho o mago na barriga.) E o que cria o menino? Melhores questões são: sobre o que cria o menino, com o que cria o menino. O que recria o menino? A narrativa multifária feita de livros e jogos e filmes e desenhos e canções — e pessoas. Aquele lápis bate bate bate no tapete preto, padrão, prestidigitação, liberdade: e as cenas, os heróis, as sagas renascem e se desdobram à sua frente. Não, não… no princípio foi eu descobrir-me terra. Vem, vem, pousa, dente-de-leão! Tudo que me toca brota.

1.

De onde vim, como escritor? Este o meu mito de criação: uma criança sentada no assoalho, de frente à mesa da sala de estar; ela se curva sobre um caderno de espiral; ela escreve e cria. Sou eu essa criança? É possível. Eu estive dentro de algo semelhante. Agora… sou a câmera, o ar em torno, os olhos do sequestrador, o demiurgo. Uma criança sentada no assoalho marrom e bege, decorado com padrões geométricos e florais, emborrachado. Do outro lado da mesa, um sofá e os avós desta criança assistem à televisão. A criança não se interrompe, não ergue a cabeça para vê-los; sabe que estão ali, aconchega-se sem saber nessa presença. Assistem, assistem, assistem à televisão, sem qualquer gesto, por que nenhum gesto? Flashes de luz — suas cores sucessivas, céu, âmbar, ovelha — quebram-se nos seus corpos paralisados. Por que nenhum gesto? Porque isto não é uma memória. Exumar em mim minha origem me entregou esse cão de três cabeças: o aparelho, a ascendência, o livro. Ou a conectividade, a fixidez e a transcendência. Eu encho as folhas do caderno de espiral com grandes letras cursivas redigidas com caneta esferográfica azul. Quando completo a frente e o verso de uma página, arranco-a — pois o caderno mantém-se um objeto escolar, e isto não é para a autoridade, isto é meu —, puxando com certa força, sentindo romper os liames de papel, depois removendo a borda lateral destacável (nunca com cuidado o suficiente) ou pinçando as rebarbas e as acumulando em um montinho. Enfim, deposito a folha no topo da pilha de concluídas (quantas dessas exige como paga o barqueiro?). Este, o meu mito de criação, origem que se esquiva e se repõe: estive e estou ainda no interior deste símbolo.

oração

acolhei-me, Thoth,
ó nobre Íbis,

acolhei-me,
concedei vossos conselhos
habilitai-me em vosso ofício

grandiosa é, entre todas, vossa profissão:
torna ela, os homens, grandiosos

sou vosso servo
deixai-me testemunhar a destreza vossa em toda Terra
e a multidão inumerável dos homens dirá:

— Tão imensas são as coisas feitas por Thoth!

e todos eles então se agregarão às vossas crianças