1.

Alguma coisa começou aqui: criança sentada no assoalho, no quarto dos avós, lado esquerdo da cama, perante um tapete preto decorado com cruzes formadas de losangos brancos espaçados entre si. Ela segura um lápis entre o indicador e o polegar e o move rápida e repetidamente; tais movimentos criam no ar uma ilusão: nas extremidades, um lápis-Janus mantêm sua solidez; entre elas, a tonalidade tensa, um efeito da retenção retiniana, o fantasma (qual seria a sua acolhida se a cada um coubesse proteger a vida de uma cor? Nesta noite eu aperto ao peito esse branco baço, meu nascerzinho de sol). Méliès mambembe, repete, repete, repete esses movimentos — e com isso tranca o corpo. Antes: atenção-rosa-dos-ventos, bafo morno do mundo no cangote, as pupilas feito imã e gosma. Agora: o olhar rói seu osso e repousa. Veja! A imaginação sente na carne a abertura de todas as celas e visita uma a uma. Sou eu essa criança? É possível. Eu sei, como ele, que uma abundância é sempre disponível, basta recuar adiante, e eu sei também: de fora, ninguém pode ver que a coisa-em-si é meu bicho de estimação. (Se essa confissão soa pedante, que se há de fazer? Tenho o mago na barriga.) E o que cria o menino? Mais essencial agora é: sobre o que cria o menino, com o que cria o menino. O que recria o menino? A narrativa multifária feita de livros e jogos e filmes e desenhos e canções — e pessoas. Aquele lápis bate bate bate no tapete preto, padrão, prestidigitação, liberdade: e as cenas, os heróis, as sagas renascem e se desdobram à sua frente. Sim… no princípio descobri-me terra. Vem, vem, pousa nesta pele, dente-de-leão! Tudo que me toca brota.